domingo, maio 3, 2026
No menu items!
Jufest Locaçõs
InícioBrasilHavaianas Vira Campo de Batalha Ideológico Após Campanha Com Fernanda Torres

Havaianas Vira Campo de Batalha Ideológico Após Campanha Com Fernanda Torres

Trocadilho da atriz com a expressão "com os dois pés" em campanha de ano novo é interpretado como mensagem política por grupos bolsonaristas, que iniciam boicote e afetam valor de mercado da marca.

O simples ato de calçar um chinelo virou um termômetro da polarização política no Brasil. Uma campanha publicitária das Havaianas para o ano novo, estrelada pela atriz Fernanda Torres, detonou uma onda de críticas e chamados de boicote por parte de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, que interpretaram uma frase do comercial como uma provocação política direcionada à direita. A peça, que mostra a atriz em um ambiente descontraído, traz o trocadilho “eu prefiro que a gente entre com os dois pés”, uma brincadeira com o ditado popular “começar o ano com o pé direito”. Para setores conservadores, a fala seria uma defesa do governo Lula, que assumiu a presidência com uma coalizão de esquerda, e um ataque simbólico à ideia de “pé direito”. A polêmica, amplificada nas redes sociais, resultou em vídeos de políticos bolsonaristas destruindo seus chinelos, uma queda no valor de mercado da empresa controladora das Havaianas, a Alpargatas, e um súbito crescimento nas redes de uma concorrente direta.

A campanha, que circulou nas redes sociais da marca no final de dezembro, parecia inofensiva à primeira vista. Fernanda Torres, em seu estilo característico, fala sobre desejos para o ano novo e solta a frase: “Eu, particularmente, prefiro que a gente entre com os dois pés”. O contexto do vídeo é leve, sem qualquer menção política explícita. No entanto, em um país onde a linguagem cotidiana é constantemente escaneada em busca de subtextos ideológicos, a interpretação foi rápida e furiosa. Influenciadores digitais e apoiadores de Bolsonaro começaram a acusar a Havaianas de fazer propaganda petista, argumentando que “entrar com os dois pés” seria uma referência à aliança PT-PSDB ou uma tentativa de deslegitimar o desejo de “começar com o pé direito”, visto como um valor de direita. A hashtag #BoicoteHavaianas começou a ganhar tração, com milhares de menções e vídeos de consumidores indignados.

A reação em cadeia foi rápida e medível. Políticos da base bolsonarista aderião ao movimento. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) gravou um vídeo jogando um par de Havaianas no lixo. A deputada estadual de São Paulo, Marília Santos (PL), fez o mesmo, declarando que a marca “escolheu um lado”. Outros repetiram um novo trocadilho, adaptando o famoso slogan “Havaianas. Todo mundo usa” para “Havaianas. Nem todo mundo vai usar”. O efeito financeiro não demorou a aparecer. As ações da Alpargatas (ALPA3) na Bovespa registraram queda nos dias seguintes à explosão da polêmica, em um movimento que analistas do mercado associaram, em parte, ao ruído negativo nas redes. Paralelamente, a concorrente Rider, marca do grupo Grendene, viu seu perfil no Instagram ganhar dezenas de milhares de novos seguidores em poucos dias, com comentários de usuários declarando migração por motivos políticos.

A Havaianas, por sua vez, adotou uma postura típica de grandes marcas em meio a crises de reputação: manteve silêncio oficial sobre a interpretação política, sem se manifestar para endossar ou negar as acusações. A estratégia parece ser a de não alimentar o fogo da controvérsia, tratando-a como um mal-entendido que deve se dissipar. Especialistas em marketing apontam que a marca, com um apelo massivo e popular, historicamente evitou alinhamentos políticos explícitos para não fragmentar seu público. A campanha com Fernanda Torres, dentro deste contexto, pode ser vista como um tiro pela culatra, onde uma brincadeira linguística colidiu com a sensibilidade hiperpolitizada do momento. A situação expõe o desafio das empresas em um ambiente onde o consumo é cada vez mais visto como um ato de identidade política, e qualquer mensagem pode ser decodificada como um posicionamento.

Enquanto a tempestade nas redes acontecia, uma imagem paralela e poderosa surgiu nas praias do litoral brasileiro: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama, Janja, foram fotografados e filmados em momentos de descanso, usando justamente Havaianas. As imagens, amplamente compartilhadas, foram interpretadas por parte do público como uma resposta não-verbal, uma apropriação simbólica do produto no campo oposto. Se para uns o chinelo era agora um artefato de esquerda a ser rejeitado, para outros tornava-se um símbolo de brasilidade e descontração, usado pelo próprio presidente. O episódio criou um paradoxo cultural: o mesmo objeto é simultaneamente rejeitado e abraçado por razões políticas diametralmente opostas.

O fenômeno vai além do boicote e atinge o cerne da cultura pop e do marketing nacional. As Havaianas são um ícone global do Brasil, um produto de sucesso que transcende classes sociais. Ver uma marca com esse status ser arrastada para o centro do furacão político ilustra o grau de penetração da divisão ideológica no cotidiano. Debates acalorados surgiram sobre até que ponto as empresas devem se posicionar, se os consumidores estão sendo excessivamente sensíveis, e qual o limite entre a liberdade criativa da publicidade e a responsabilidade corporativa em um país dividido. A concorrente Rider, por exemplo, aproveitou a deixa para postar conteúdos com a hashtag #TodoMundoUsa, em uma clara provocação indireta, sem mencionar a rival, mas surfando na onda da atenção.

O desfecho desta crise ainda é incerto. O histórico mostra que boicotes movidos por polêmicas nas redes sociais tendem a ter vida curta, mas podem deixar marcas duradouras na percepção de uma marca. O prejuízo financeiro imediato pode ser recuperado, mas a associação da Havaianas a um “lado” do espectro político, mesmo que involuntária, pode alterar seu relacionamento com parte do público no longo prazo. O caso serve como um estudo de manual para o risco de comunicação em tempos de guerra cultural. Em um Brasil onde até um chinelo pode ser lido como um manifesto, as marcas são forçadas a navegar com extremo cuidado, pois uma simples campanha de ano novo pode, literalmente, fazer alguém entrar no novo ano com o pé esquerdo no mundo dos negócios.

Enquanto isso, nas praias e nas ruas, o brasileiro comum segue seu verão. Muitos, alheios ou cansados da briga digital, continuam calçando suas Havaianas pela praticidade, pelo conforto ou pelo afeto a um símbolo nacional. Outros, conscientemente, escolhem calçá-las ou evitá-las como um ato político. A cena descrita por um internauta resume a surrealeza do momento: Lula e Janja caminham pela praia, de Havaianas nos pés, enquanto parte do país tenta decidir se o chinelo é de direita, de esquerda ou uma ameaça à democracia. Ao fundo, o mar segue indiferente, ondas quebrando e recuando, e o brasileiro segue discutindo sandália como se fosse projeto de lei. A disputa pelo significado de um objeto tão ordinário revela o extraordinário abismo no qual o debate público brasileiro se instalou, onde tudo, até o que se veste nos pés, é passível de se tornar trincheira.

Aurélio Fidêncio
Aurélio Fidênciohttps://clicksorocaba.com.br
Atuando na comunicação digital desde 22 de outubro de 1999.
RELATED ARTICLES
DEDETIZADORA DDPLAN

Most Popular

Recent Comments